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Pare de esperar a eleição. O Brasil já deu o resultado.

  • Gustavo Sette
  • há 19 horas
  • 8 min de leitura


Outubro está chegando e começa uma velha mania brasileira: esperar a eleição para decidir o que fazer.


O empresário espera para investir. O executivo espera para se qualificar. A família espera para organizar o patrimônio. O investidor espera para proteger os investimentos. Todo mundo esperando o país "clarear".


Parece prudência, mas é na verdade só procrastinação com análise política por cima, ou fantasia mesmo. É claro que a eleição importa, mas para boa parte das decisões sobre sua empresa, sua carreira e seu patrimônio, você não precisa esperar outubro.

O resultado que interessa já saiu. O Brasil continuará sendo o Brasil, independente de quem ganhe.


Não espere um país diferente


Eu sou um eleitor sem grandes esperanças. Acredito num Estado que faça quatro ou cinco coisas bem feitas e seja cobrado por isso, mas o Brasil é o oposto: o Estado se mete em tudo e faz trezentas coisas mal feitas. E qual a resposta para isso? Mais Estado.


O modelo de país em que eu acredito nem aparece seriamente no cardápio. Menos Estado e mais participação dos indivíduos. E talvez esse seja o ponto mais importante: não é culpa apenas dos políticos. É uma escolha do cidadão.


Hoje — e na verdade não é de hoje —, dois nomes concentram a disputa presidencial. São projetos diferentes, mas nenhum deles propõe romper de verdade a estrutura gigantesca do Estado. Os poucos candidatos que falam em reformas estruturais não passam de 2% nas pesquisas, o que significa que reformar não é demanda da sociedade.

É demanda de quem escreve artigo.


Portanto, vote em quem quiser. Só não monte sua vida esperando uma transformação que o próprio eleitorado não está pedindo.


Temos que trabalhar com dados de realidade e, considerando que o Brasil vai continuar sendo o Brasil, listei algumas reflexões para carreira, gestão e investimentos.


O dinheiro continuará caro e perderá valor


O Estado brasileiro gasta mais do que arrecada. Isso não é ciclo, é estrutural, e vai piorar. Um Estado que gasta mais do que ganha tem duas saídas, e as duas custam caro para você.


A primeira é segurar a inflação e o câmbio na base do juro alto. Hoje a Selic está em 14% ao ano, uma das mais altas do mundo. A segunda é imprimir dinheiro para rolar a dívida que vence, o que desvaloriza a moeda e acelera a inflação.


Na prática, o Brasil escolhe uma dose de cada. O resultado é sempre o mesmo: o real perde valor, seja pela via do juro que estrangula a atividade, seja pela via do câmbio que dispara quando a conta aperta demais.


Pode mudar o presidente, o ministro, o discurso e o slogan. Continuaremos sendo um país caro, endividado, com orçamento engessado e enorme resistência a cortar qualquer coisa.

Para você, isso significa três coisas. Primeiro, você não pode ter dívida. Se tiver, o foco é quitar. Dinheiro caro é a regra, não a exceção, e alavancagem num país assim é aposta, não estratégia.


Segundo, você não pode levar o câmbio a sério — no sentido de confiar nele. Não dá para prever se o dólar vai a quatro ou a sete. Dá para se proteger antes de descobrir.


Terceiro, você não pode operar com margem apertada. Não faz sentido nenhum trabalhar em algo que rende menos do que não fazer nada. Se o seu negócio não paga um prêmio real acima do que o governo paga para você simplesmente emprestar dinheiro a ele, você não tem negócio. Tem trabalho voluntário com risco.


Tudo isso tem que estar no preço que você pratica. Se a conta não fecha considerando juro alto, câmbio instável e imposto subindo, não faça. Quantos fundos de private equity estão no Brasil há anos analisando milhares de negócios e não conseguem comprar nenhum? Será que estão errados? 


Margem apertada é bonita com o dinheiro dos outros.



Seu patrimônio precisa se proteger da moeda e da fome arrecadatória


Há mais de dez anos ouço clientes me dizendo: "eu sei que você sugeriu dolarizar meu patrimônio, mas vou esperar o câmbio melhorar um pouco".


Eu comecei ali por 2013, com o dólar comprando 2,20 reais. Toda vez eu acho que o dólar está caro e ele insiste em ficar mais caro.


O brasileiro espera o dólar voltar para aquele número que ficou guardado na memória, como se preço fosse nostalgia. Não sei se o dólar vai a quatro, seis ou sete. E essa é exatamente a razão para diversificar. 


Ter todo o seu patrimônio numa moeda só já seria discutível. Numa moeda frágil e pequena como o real, é imprudência com aparência de patriotismo. Se sua renda está no Brasil, sua empresa está no Brasil, seus imóveis estão no Brasil e todo o seu dinheiro também está em reais, você não está sendo conservador. Está fazendo uma aposta enorme num único país — e nem percebeu que apostou. Você não gosta do Trump e acha que o dólar vai entrar em colapso? Então olhe euro, franco suiço, libras, ou uma cesta de moedas.


Vale, aliás, uma pergunta incômoda: a sua inflação real de vida — escola dos filhos, viagem, saúde, alimentação, gasolina — é mesmo essa que o IBGE divulga, medida em reais? Ou você só usa esse número porque é o número oficial, não porque é o número verdadeiro para a sua vida?


Quem tem patrimônio relevante também precisa aceitar que riqueza continuará sendo alvo de discussão política, tributária e social. Pode achar justo ou injusto. Para o planejamento, pouco importa. Nos últimos anos, mudou tudo. Tributação de holding, doação, offshore, e vai mudar mais. Você precisa ter boa assessoria tributária e jurídica, e não ficar paodurando boas assessorias e tentando se virar com diquinha grátis de influencer. 



Sua aposentadoria é problema seu


Se você não estiver muito perto de se aposentar, provavelmente não vai se aposentar pelo INSS. Não haverá dinheiro. Muitos pedidos de aposentadoria hoje já são negados. Haverá outras reformas. Regras mudarão. Idades mudarão. Benefícios serão pressionados. Pode acontecer mais rápido ou mais devagar, mas a conta demográfica não negocia com campanha eleitoral.


Previdência privada também é arriscada. A maioria dos planos paga em reais, sem proteção cambial, e está sujeita às mesmas regras que o governo muda quando precisa. Pode render bem num ano, render mal no outro, e no fim você descobre que construiu patrimônio numa moeda que perdeu metade do valor no caminho.


Construa patrimônio suficiente para que sua aposentadoria não dependa da generosidade do governo que estiver lá e nem da performance de um plano de previdência que você não controla.


E coloque saúde nessa conta. Plano de saúde tende a ficar mais pesado justamente quando sua capacidade de gerar renda começa a cair. Você pagará por você, pelo cônjuge e talvez ainda ajude pais ou filhos. Se hoje você tem plano de saúde da empresa, nem imagina quanto isso custa na física — e vai descobrir na hora que sair.

Tudo isso precisa estar na conta: ter renda para um futuro sem aposentadoria pública e tendo que pagar por saúde integralmente.


O que fazer com o que você contribuiu ao INSS? Considere como doação. Faz bem ao coração.



Você e sua empresa pagarão pelas falhas do país


Se você emprega gente, aceite uma realidade desagradável: boa parte dos profissionais chegará menos preparada do que você gostaria. A mão de obra está ruim e vai piorar, além de ficar mais cara e arriscada.


No último exame internacional que mede aprendizado, quase três em cada quatro estudantes brasileiros de 15 anos não atingem o nível básico de matemática. Em leitura, metade fica abaixo do esperado. E esse desempenho está estacionado há anos e nenhum político consegue sequer conversar sobre isso.


Algo que eu fiz no passado e pode ser feito é investir em educação básica para os funcionários. Contrate professores e ofereça aulas de português, matemática, comunicação, atendimento, raciocínio e até a disciplina básica de interpretar uma instrução e cumprir um combinado. Não é caro e faz bem à empresa e à sociedade. 

É absurdo a empresa ter que ensinar parte do que a escola deveria ter ensinado? Talvez, mas absurdo faz parte do jogo.


O mesmo vale para as relações de trabalho. O Brasil continua dobrando a aposta em aumentar o risco trabalhista. Já é o maior do mundo, mas por que não piorar? Tudo agora pode ser assédio, abuso, o mero fato de ter metas é perigoso, as conversas são cada vez mais arriscadas, tem denúncia para tudo. E tudo isso tem que estar no preço.


Gestão de pessoas é risco pessoal e empresarial. Se você é gestor, precisa se capacitar para lidar com trabalho remoto, pessoas menos preparadas, mais dispersas e risco judicial cada vez maior, pois nada disso tende a melhorar.


Isso integra outro dado de realidade: a cultura brasileira cada vez mais defende a ideia de que os ricos e as empresas têm que pagar por todos os problemas do país, mesmo considerando que o Estado já é remunerado para fazer isso. Saúde, educação, transporte, diversidade, até mesmo o clima.


Todas custam dinheiro. Coloque na margem.



Integridade também entra no risco


Talvez essa seja a parte mais desconfortável da eleição e do momento do país, em que o Estado se uniu como um bloco só que se protege em benefício próprio. Muitos candidatos a todos os cargos em disputa querem a vaga justamente para se proteger dos riscos de algo que fizeram. 


Quando uma sociedade começa a discutir integridade por comparação, a régua já desceu. Não se discute se o candidato A é honesto, mas sim se o B está mais sujo. Tudo isso contamina e não fica só em Brasília. Aparece no sócio, no fornecedor, no executivo que aceita uma irregularidade, no fiscal, nas relações de trabalho, nas regras de consumidor e por aí vai.


Mais um item que tem que estar no preço!



Depois de outubro


Vote. Torça. Discuta política. Brigue no grupo da família, se ainda tiver energia para isso. Só não espere que a eleição resolva aquilo que já é responsabilidade sua. 

Trabalhe para não ter dívida. Não faça negócio que só funciona com margem apertada.


Diversifique patrimônio. Planeje sua aposentadoria e sua saúde. Pague boa assessoria. Treine as pessoas de que sua empresa precisa. Profissionalize a gestão. Proteja o que construiu. Escolha muito bem com quem você se associa.


Nada disso garante que as coisas darão certo, mas aumenta bastante a chance de você não ser destruído por aquilo que já sabia que poderia acontecer.


Essa talvez seja a parte menos confortável de aceitar: não controlamos boa parte do cenário. O câmbio pode disparar, o governo pode mudar a regra, um sócio pode decepcionar, uma crise pode aparecer e alguém em Brasília pode ter uma ideia particularmente ruim numa terça-feira à tarde.


Ainda assim, a vida continua, os boletos vencem, as empresas abrem de manhã e as decisões precisam ser tomadas. O erro é esperar que o Brasil finalmente fique racional para então começar a agir racionalmente. Como se primeiro fosse preciso resolver o país para depois resolver a própria vida.


Não vai acontecer nessa ordem. A eleição vai escolher quem governa o Brasil. Sua empresa, sua carreira, seu patrimônio e as pessoas que dependem de você continuarão sendo problema seu.


É esse tipo de conversa que tenho com fundadores, sucessores e executivos no meu trabalho: não para adivinhar o que Brasília fará — já existe gente demais cobrando caro para errar isso —, mas para tomar decisões que continuem fazendo sentido quando Brasília fizer exatamente o contrário do esperado.


Talvez exista alguma liberdade em aceitar isso. O Brasil continuará sendo o Brasil, e nós ainda teremos que acordar na segunda-feira.

 
 
 

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