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Na vida profissional, dinheiro é o único elogio que não mente

  • Gustavo Sette
  • há 13 minutos
  • 3 min de leitura

No palco das organizações modernas no Brasil, há uma peça que se repete à exaustão. O cenário muda, os atores variam, mas o enredo é sempre o mesmo: fala-se de cultura, de pertencimento, de propósito. A palavra “dinheiro” entra em cena apenas como coadjuvante — quando muito.


Curioso. Porque, apesar do esforço coletivo em fingir o contrário, o verdadeiro elogio profissional continua sendo silencioso e preciso: dinheiro. Ele não precisa de PowerPoint, de discurso inspirador, nem de palminhas. Ele chega com poucos dígitos — mas muitos zeros — e encerra a conversa com uma elegância que nenhuma cerimônia de reconhecimento consegue replicar.


Lembro de uma cena, tem mais de 20 anos, mas incrivelmente atual. Estava na mesa de um diretor, em um banco em que trabalhávamos. O chefe dele sentava na mesa em frente e o chamou. Entregou um papel e disse apenas: “Parabéns.” Era um post-it amarelo. O diretor voltou ao meu encontro sorrindo com discrição. Perguntei do que se tratava. Ele respondeu: “Meu feedback anual.” Uma cifra. Só isso. E tudo estava dito.


Aquilo me marcou. Na era em que o profissional precisa “se sentir parte”, “abraçar o propósito” e “vestir a camisa”, ali estava a única forma de reconhecimento que não infantiliza nem embriaga: valor financeiro.


Os demais rituais são confortáveis — mas baratos. Títulos inflados, selos de “talento promissor”, presentes simbólicos, a selfie na rede social com “um time de estrelas”, discursos edificantes acompanhados de muitos likes. Tudo isso tem seu lugar e cumpre uma função quase litúrgica nas organizações modernas. Mas nenhum desses gestos exige, de fato, uma escolha difícil. Nenhum deles implica abrir mão de algo escasso.

O dinheiro, sim.


Ele é finito, disputado e desejado por todos. Quando a empresa decide que ele irá para o seu bolso, está decidindo que não irá para outro projeto, nem para outro executivo, nem para o bolso do acionista. Alguém abriu mão. Alguém priorizou. E é justamente aí que o reconhecimento deixa de ser retórico e passa a ser real. Quando o dinheiro vem, ele sinaliza algo que nenhuma narrativa consegue falsificar: você entrou, de fato, na lista das prioridades.


E é por isso que evitam tanto falar sobre ele.


Porque o dinheiro, quando entra na conversa, exige coerência. Expõe a prioridade real da empresa. Tira da zona de conforto o gestor que se esconde atrás da cultura, e o RH que organiza eventos, mas evita planilhas.


Nos últimos anos, tentaram nos convencer de que trabalhar por propósito é mais nobre do que trabalhar por remuneração. Que o jovem idealista estaria disposto a abrir mão de estabilidade para “construir algo com significado”.


É uma ideia bonita. Também é, na maior parte das vezes, uma farsa conveniente.


Eu, pelo menos, nunca conheci um jovem — nem um veterano — que, na prática, tenha trocado dinheiro por propósito de forma duradoura. Talvez porque uma das formas mais concretas de se viver um propósito seja justamente com mais dinheiro. Ele não resolve todos os dilemas da existência — e nem deveria. Mas resolve todos os problemas ligados a dinheiro. E, convenhamos, esses não são poucos.


Aliás, vale a pergunta: sua vida profissional é o propósito em si ou apenas um meio para alcançá-lo?


Seja qual for a resposta, há algo que dificilmente se contesta — mais dinheiro costuma encurtar o caminho, ampliar as escolhas e reduzir as concessões. E talvez isso seja mais “propósito” do que muitos discursos que ouvimos por aí.


Sim, claro que queremos construir algo relevante. Mas relevância sem recompensa é caridade mal disfarçada de carreira.


Não se trata de ganância. Trata-se de clareza. De tratar a relação de trabalho como o que ela é: um pacto entre adultos. Com entrega, com confiança — mas também com retorno. E o retorno, quando é apenas simbólico, torna-se ruído.


Costumo dizer aos meus mentorados: não delegue ao acaso aquilo que deve ser tratado com precisão. Bons profissionais, em boas empresas, precisam falar sobre dinheiro com naturalidade. Desde o início, na entrevista, na contratação das metas, na avaliação de desempenho, no novo desafio que chega.


É possível gostar das pessoas, admirar os líderes, acreditar na causa — e ainda assim querer ser muito bem pago por isso. Não há contradição alguma. A contradição está em fingir que o entusiasmo sustenta uma carreira. Ele pode iluminá-la. Mas quem sustenta é o saldo.


Se isso soa pragmático demais, talvez o problema esteja no romantismo do discurso — não na lógica da vida. No fim, cada um escolhe o tipo de fábula com a qual consegue dormir em paz.



 
 
 

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