Gerenciar pessoas é, boa parte do tempo, ser babá de adultos
“Não aguento mais me sentir uma babá de marmanjo!”. Essa frase recente de um mentorado ilustra bem uma sensação comum entre executivos: uma espécie de indignação com o fato de adultos precisarem ser lembrados do que precisa ser feito.
Essa indignação, contudo, é injusta, pois adultos, em geral, realmente precisam de direcionamento. É o mesmo processo que leva uma pessoa a começar uma dieta toda segunda-feira, a pagar academia e não ir, a iniciar um curso ou livro e abandonar, a gastar mais do que pode, mesmo sabendo disso, e assim por diante.
Os motivos para essa necessidade podem ser explicados por diversas teorias de comportamento, como a Teoria da Autodeterminação de Deci e Ryan (década de 1980), a Teoria do Reforço de B.F. Skinner (década de 1930), a Teoria da Perspectiva de Daniel Kahneman e a Gestão por Objetivos de Peter Drucker. No contexto latino, essa dinâmica é exacerbada por uma cultura que perpetua a imagem do patrão opressor e do lucro excessivo, além de problemas básicos de formação e educação. Adicionalmente, a crescente oferta de meios de interrupção e distração compete com as tarefas a serem realizadas, que muitas vezes são percebidas como tediosas.
A área mais interessante para se observar essa dinâmica é a comercial. Entregue a um time de vendedores uma meta individual totalmente factível no começo do mês, fique sem acompanhar e volte no dia 30 para ver o que aconteceu.
Passada a indignação, o gestor deve ser claro e redundante com seu time em: o que deve ser feito, como deve ser feito e por que. Idealmente, o trajeto deve ser construído com cada liderado, pois se vier da boca dele, é melhor. Mas nada garante que o que foi combinado será feito, então é preciso repetir e acompanhar, sempre lembrando que poucos funcionários pedem ajuda ou sinalizam que estão atrasados.
Com o tempo, o gestor deve adotar diferentes estilos de liderança, delegando algumas tarefas para alguns liderados e celebrando quando encontrar os casos raros de pessoas que recebem a missão e fazem o que precisa ser feito, sem acompanhamento da execução.
No meu trabalho mentorando gestores, o maior desafio não é ensinar o que fazer, mas sim reduzir o impacto emocional que isso causa. As expectativas de que adultos deveriam fazer o combinado sem tanta supervisão são frequentes, mas não há julgamento de valores aqui. O papel do gestor nesse cenário é ajudar as pessoas e ajudar a empresa. Pode não ser o que você sonhava, mas é boa parte do papel de ser gestor.
(da série “Verdades da vida corporativa”, com dores reais e atuais trazidas por mentorados)



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