top of page
  • wpplogo
  • LinkedIn ícone social

Empresa centenária, sucessor sufocado. Mas ninguém fala sobre isso.

  • Gustavo Sette
  • 15 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

(Texto feito por uma inteligência humana — com falhas, vírgulas tortas e ideias próprias. A imagem, essa sim, é IA.)


No último domingo, participei de uma interessante exposição chamada Open House Porto, em que dezenas de prédios históricos da região se abrem para receber visitantes e contar um pouco da história do lugar.


Uma das visitas foi a uma tradicional fábrica de peixes em conserva — uma das responsáveis pelo cheiro na vizinhança e que, frequentemente, nos lembra que estamos em Matosinhos.


Trata-se de uma empresa familiar centenária, fundada no começo do século XX, e a visita mostrou um banquete em torno de tradição: lindos azulejos portugueses, bancadas de mármore, chão em mosaico hidráulico, a escadaria de madeira em forma de um peixe, os livros da época da fundação, a preocupação com os funcionários e com a qualidade do produto, o cofre antigo em que se guardava a receita do molho (que ainda é secreta)… Sem dúvida uma empresa de qualidade, que tem 80% de sua receita em exportação.


Uma parte, porém, me chamou a atenção mais do que tudo: o mural com a história da família. A empresa está na 3ª geração e há uma parede que mostra os três executivos que a dirigiram.


E adivinhe? Três homens com o mesmo nome. Para não citar diretamente, vamos supor que o nome seja “Augusto Vidal”. Temos então a empresa fundada pelo senhor Augusto Vidal, que tocou por 30 anos e passou o bastão para seu filho Augusto Vidal, que tocou por mais 40 anos e passou para seu filho… Augusto Vidal. Vemos, então, uma parede com a foto de três Augusto Vidal ao longo dos anos.


Tamanho apego à tradição pode ser ótimo para clientes, funcionários e até mesmo alguns familiares. A história está aí, a tradição, a previsibilidade, nada vai mudar, nada vai sair do lugar.


O problema é quando olhamos esse roteiro na pele de um potencial sucessor.


Imagine ser dessa família e ser o próximo Augusto Vidal. Você é criado desde o berço com a expectativa de tocar uma fábrica de conservas em Matosinhos por toda a sua vida, não mudar nada, ter um filho homem chamado Augusto Vidal e passar esse bastão para ele.


E se o próximo Augusto Vidal quiser ser acadêmico, artista, médico, engenheiro, atleta? Aparecem então as frases clássicas de empresas familiares: “O negócio é seu, por que fazer algo diferente?” “Tudo que os antepassados fizeram foi para você.” “Você pode fazer outra coisa, mas vai interromper uma tradição centenária.” “Pense bem, pois aqui você está seguro, o mundo aí fora…”


Pense também que o próximo Augusto Vidal tem uma irmã, apaixonada por negócios e pela empresa da família, mas quem é ela para entrar em um lugar feito para o irmão?


A parede com os três Augustos diz muito sobre a empresa. Mas o que ela não mostra é que, na década passada, foi preciso vender tudo para não perder tudo. A tradição só sobreviveu porque um investidor — estrangeiro, ex-cliente — topou comprar o negócio com uma única exigência: deixem tudo como está.


A história foi preservada. A transformação, adiada. A tradição, que antes era prática viva, virou acervo — literalmente. O que um dia foi chão de fábrica virou atração turística. A herança virou museu. Do ponto de vista do branding, um sucesso. Do ponto de vista do sucessor… nem sempre.


Nesse universo das empresas familiares, fala-se muito em legado e continuidade. E pouco — muito pouco — sobre o preço que se cobra de quem herda essa missão. Não é que a felicidade do sucessor não importe. É que ela raramente entra na conta. Não vende livro, não atrai patrocínio de congresso, não garante manchete.


Consultores e acadêmicos se empolgam com a perpetuação da empresa, como se isso fosse sinônimo automático de família saudável e sucessor realizado. Mas poucas mentiras são tão bem embaladas quanto essa.


Eu posso admirar essa empresa. Ser cliente, investidor, me encantar com o cuidado artesanal e até com o cheiro de sardinha no ar. Mas como consultor, meu olhar vai para outro lugar. Vai para o sucessor, para o silêncio dele no jantar de domingo, para os sonhos que não cabem numa lata. E como ele pode lidar com todo esse absurdo. Porque quando a tradição vira museu, o sucessor corre o risco de virar o guia turístico da própria vida.


Há livros, eventos e associações celebrando empresas familiares centenárias. São histórias incríveis, cheias de mérito, e eu admiro muito. Mas, em muitos casos, o preço cobrado ao sucessor para participar dessa história é alto demais.


Já tive clientes que me procuraram querendo entender o segredo: “Como uma empresa familiar atravessa cem anos?”


Eu poderia falar sobre governança, rituais, valores, ciclos de mercado. Mas, na maioria das vezes, devolvo com uma pergunta simples — e desconfortável:


Você quer mesmo isso?


Porque, sim, empresas centenárias são admiráveis. Mas nem sempre são sustentáveis para quem precisa carregar o legado no corpo e nos sonhos.


Se você é (ou conhece) um Augusto Vidal — ou a irmã dele — talvez seja hora de reescrever esse roteiro antes que ele vire peça de acervo.



Posts recentes

Ver tudo
“Todo mundo para em janeiro?”

Não! Quem para, para. Todo verão é a mesma coisa: metade da empresa vai para a praia e a outra metade fica no escritório, ressentida,...

 
 
 

Comentários


© Gustavo Sette - Todos os Direitos Reservados ®

bottom of page